Ídolo colorado revela que é tratado com falta de respeito e diz que não recebe salários desde setembro. Jogador afirma que não foi procurado para acordo.
No Brasil já não é muito comum valorizar os ídolos do passado. Muitos personagens que marcaram história em algum seguimento caem no esquecimento e não são respeitados por tudo que já fizeram. No futebol não é diferente. No Vila Nova então a situação é ainda pior. O clube não tem valorizado nem mesmo os ídolos recentes. Um deles é o goleiro Michel Alves. Titular no último título conquistado pelo Tigrão, em 2005, o jogador passou por maus momentos em 2011.
Michel Alves disputou 53 jogos na temporada, sendo boa parte deles sem receber nenhum centavo sequer. Segundo o jogador, o clube não o paga desde setembro e até hoje ninguém o procurou para fazer um acordo, ao contrário do que alguns dirigentes colorados já disseram. O goleiro não teve alternativa e entrou na Justiça para tentar se desvincular do clube. Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, Michel relatou o triste panorama do Vila Nova em 2011. O resultado não poderia ter sido outro. No ano que vem, o Tigrão disputará a Série C do Campeonato Brasileiro.
Michel Alves – Não houve conversa nenhuma. É até engraçado isso. O clube passa uma imagem para a torcida que não é verdadeira. Eles falam que estão tentando fazer os acertos, mas até agora ninguém teve a capacidade de me procurar. Está parecendo que nós estamos em débito com o Vila Nova, mas não é verdade. Eu até tentei fazer o acerto umas três ou quatro vezes, porém, nem me ouviram. Falavam que não tinham como me pagar. Eu tenho muito respeito pela torcida do Vila, mas sinceramente, ela não merece o clube que tem. A situação é lamentável.
- Você tem algum tipo de relacionamento com a nova diretoria?
- É bom esclarecer isso. Não conheço nem o presidente (Eduardo Barbosa) e nem o diretor de futebol (Jair Rabelo). Eles ainda não me procuraram. A diretoria antiga simplesmente ‘lavou as mãos’ e saiu do clube. Acho que eu merecia um pouco mais de respeito pela história que eu tenho com o clube.
Ninguém teve a capacidade e o respeito de pelo menos me fazer uma ligação. Não recebo um centavo desde setembro. A torcida do Vila é maravilhosa e não merece o time que tem”
Michel Alves
- Há quanto tempo você está sem receber?
- Não recebo um centavo sequer desde setembro. Não recebi o 13º salário e nem o FGTS também. Não é porque o time não vence que a diretoria tem o direito de mudar tudo, trocar de técnico sete vezes e não pagar os profissionais. Isso é falta de respeito. O único mês em que o Vila Nova pagou em dia este ano foi em fevereiro.
- Vai entrar na Justiça?
- Já entrei. O que eu posso fazer? Tenho família, casa, contas para pagar. Não posso ficar de braços cruzados. O clube simplesmente não pagou os atletas e deixou que cada um tomasse as providências que achasse necessárias. Entrei na Justiça, é o caminho mais correto. Se me ligarem, eu converso numa boa. Mas até agora ninguém me ligou.
- Alguns jogadores já acertaram suas rescisões…
- Você acha que eles estão satisfeitos? Tenho certeza que não. Muita gente aceitou o acordo porque precisava do dinheiro e porque queria ficar livre para negociar com outros times. A vida segue.
- Como foi abrir mão de uma proposta do Bahia no meio do ano?
- Realmente houve essa proposta. O Vila Nova iria ganhar dinheiro e mais três jogadores que o Bahia iria ceder. Mas não quiseram me liberar. Me fizeram acreditar no projeto. E eu sempre acreditei, tanto é que assinei contrato por dois anos. Mas não me venderam e não pagaram mais os meus salários a partir de dezembro. Abri mão de dinheiro e de uma grande oportunidade para ficar no Vila Nova.
- O time do Vila era bom?
- Não posso dizer que era excepcional, mas tinha muitos talentos individuais. Era para ter feito uma campanha melhor. Não cabe a mim dizer se iria subir ou não. Mas foi o time que a diretoria montou. É difícil você trabalhar durante a semana sem a mínima organização e perspectiva e jogar no fim de semana contra um clube organizado. Até os próprios jogadores de Salgueiro e Duque de Caxias, que também foram rebaixados, nos disseram que o pagamento deles poderia até atrasar, mas era feito. Então fica difícil. Eu, Roni, Ben-Hur e outros jogadores tentávamos organizar a casa, mas este não era o nosso papel. Não é fácil jogar e administrar problemas.
- Havia problemas internos no grupo?
- Poucos, como existem em qualquer lugar. Mas isso não afetava em campo. Eu não acredito em panela para derrubar o time. Quando você faz corpo mole, as pessoas notam e você fica prejudicado por isso. A questão é que é muito fácil dizer que havia problemas internos. Assim as pessoas se livram da culpa e a responsabilidade fica apenas para os jogadores.
- Foi a maior decepção da sua carreira?
- Não digo que foi a maior decepção, porque eu escolhi vir para o Vila Nova. Nós pagamos por nossas escolhas. Mas foi um momento muito triste. Eu nunca tinha passado por isso.
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